Home / Crateús / Reportagem destaca mulher que há mais de 70 anos trabalha como agricultora em Crateús
Israel Matias da Silva produz frutas, mel, hortalicas e ovinos em Crateús. (Foto: Mateus Dantas / O POVO)

Reportagem destaca mulher que há mais de 70 anos trabalha como agricultora em Crateús

Faz mais de 70 anos que a agricultora Maria de Jesus abre caminhos, das 4 horas da manhã às 7 da noite, pela comunidade de Santo André, longe quase 60 quilômetros de Crateús, para filhos e netos caminharem. “Meu nome é Maria de Jesus Soares Neves, eu nasci no dia 20 de novembro de 1946, em Santo André. Aqui me criei e aqui estou ainda, não pretendo sair”, abarca, em um único fôlego. “A vida inteira foi assim”.

Do nascer até chegar ao século 21, a agricultora atravessou secas em cada uma das sete décadas. Maria de Jesus carrega noites de quase não amanhecer. “Comi pão de mucunã, uma frutinha da mata, muito venenosa. Pra pessoa fazer o pão, tinha que pisar o caroço, lavar em nove águas. Era o que tinha na seca, antigamente”, conta.

Viu uma criança e “uma família quase toda morrer” de fome. Garimpou água em cacimbas fundas, andou léguas com a lata na cabeça. Seguiu dom Fragoso (1920-2006; filho de agricultores e bispo de Crateús em 1964), cruzando a ditadura (1964-1985) com os ideais da Teologia da Libertação e dos direitos humanos. Foi presidente local do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, nos anos 90, em pleno combate da escravidão do pobre pelo dono da terra. E não se cansou.

“Filha, no semiárido, o problema não era a falta de chuva. Era os governantes, que era massacre para os trabalhador. Os mais pobre que fosse ser escravo dos mais rico. Os moradores (arrendatários) dos proprietários (de terra) tinha que trabalhar dois dias por semana, obrigatório, para o patrão. Se chovesse, não tinha direito de plantar a horta dele, ia, primeiro, plantar a do patrão. Alcancei isso aí”, narra a agricultora. Somente com “os mandatos populares”, assinala, de 2003 para cá, “os trabalhador foram tendo seus projeto pra viver”.

Sempre foi preciso mudar o pensamento em favor de novos tempos e convivências. Depois de caminhar com a Pastoral da Terra, em 1994, reflete Maria de Jesus, ela criou “outro sistema de viver” no semiárido: em par com a natureza. Protegendo o solo, valorizando a água.

Instalou uma cisterna de enxurrada (para captar água da chuva antes de se perder no escoamento), que armazena 52 mil litros, e um cacimbão que retorna a água do telhado ao subsolo. Soube que esterco de caprino e de ovino é adubo e mantém a umidade da terra – outra necessidade do semiárido: conservar água no subterrâneo. “Comprei um poço (em 2014), no Banco do Nordeste, tô pagando (até 2024)”, acrescenta, investindo na irrigação. “Aprendi que a gente deve conviver com aquilo que pode se manter. O tamanho da sua terra ser o tamanho do seu plano”, ajusta, feito a vida: não é ter pouco, é possuir o suficiente.

A avó é a história que alfabetiza Israel Matias da Silva, 30 anos, secretário de jovens do Sindicato de Trabalhadores Rurais e que assumiu a sucessão rural no sítio da família. Cria de Santo André, ele trabalha ao lado da avó e do pai, desde os oito anos de idade, quando voltaram ao Interior depois da ilusão geral na cidade maior. “No inverno, ela já mandava fazer nossa enxada pequena, e a gente subia com ela pra roça. É o espelho da gente”, descreve.

As gerações se encontram no amor à terra e no beneficiamento das frutas do sítio. Maria de Jesus continua à frente, madrugando e anoitecendo no fazer doces, licores, polpas. “Ela abriu caminhos pra gente: em 88, começou a primeira cajuína aqui”, segue o neto.

Na propriedade de quase 29 hectares – dois quintais imensos (um deles avista até a Serra Grande, fronteira com o Piauí) -, o cultivo ocupa espaço semelhante ao de seis campos oficiais de futebol. A flora nativa é resguardada desde quando pararam as queimadas e os agrotóxicos. “A mata se constituiu, mas ficou uma ferida: a terra ficou ácida. A recuperação é lenta”, observa Israel, que também é técnico agrícola.

A convivência respeitosa firma a ponte entre as relações e o futuro. Israel planeja o aumento e a sustentabilidade da criação de pequenos animais, com a palma. É a sua vez de abrir caminhos, pelas terras onde a avó escreveu a vida inteira. “Isso vai passando pra gente, de ter também uma responsabilidade perante essa terra… Nascer e se criar num espaço desse, a gente cria um apego muito grande”, abraça.

Fome nunca mais

A agricultora Maria de Jesus Neves sempre comprou pouca coisa no mercado. “A goma (de mandioca) tinha, os ovos, as frutas, a carne”, diz sobre a oferta do semiárido. “Se tá seco, vai aproveitar as coisas que dá na seca. E se tá chovendo muito, aproveitar bem a água, pra sustentar quando vier a falta de chuva”, convive. “Tem que plantar o que o semiárido socorre”, relaciona.

Ela e natureza se ajudam. “A gente planta também na lua, que eu acredito muito na lua. Tem as fase pra plantar e pra colher, aproveitar esse momento, pra ajudar a natureza. Da lua nova para o crescente, é o tempo melhor de se plantar. Pra colher, chama assim: quando a lua tá no escuro”, orienta.

Na prática da lida, nas experiências compartilhadas ou na educação por escolas agrícolas, fez-se a permanência. “A ignorância faz com que as gerações se desloquem para o Sul. Porque não enxergam o potencial que essa região tem”, considera o técnico agrícola Israel da Silva. A roça não é castigo para quem não estudou, contrapõe: é criação de abelha, de cabra e de peixe, produção de frutas e legumes, para quem adquiriu conhecimento sobre o sertão.

Ao lado da avó, Israel marca um calendário da fartura: o ano começa com mandioca, gergelim, acerola; de abril a junho, colhem mel; em julho, é a safra do caju; novembro e dezembro são meses da manga. “Aí, começa tudo de novo. E, na Semana Santa, tem a tilápia”, anexa.

“Tem horas que a gente tá agoniado, como vou fazer? Tem todas as dificuldades. Mas a gente conversa, vai se organizando, ajudando uns com os outros”, pondera. São muitos semiáridos possíveis, ele aponta: “Semiárido é esse espaço de viver. Seja ele argiloso, arenoso, pedregoso… Cada povo, cada cultura, potencializa aquela região. Por detrás disso, tem que ter o cuidado ambiental. Se não cuidar, as futuras geração não vão desfrutar dessa riqueza que o semiárido tem”.

(O POVO Online)

Facebook Comments
error: USE OS BOTÕES DE COMPARTILHAMENTO